Embaixada de Portugal em Estocolmo - Suécia

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O Visconde António da Cunha Soto Maior 1812-1894

 

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O Visconde de Soto Maior, representante de Portugal na Suécia no período de 1856 a 1894, foi uma das mais notáveis personalidades estrangeiras no país no século XIX, pela sua conhecida e intensa vida social durante a longa estadia (só interrompida por uma deslocacao ao México a pretexto da participação nas cerimónias de posse do Imperador Maximiliano, mas que se prolongaria por quase dois anos), a sua personalidade e a forma como representou o nosso país.  Mais de um Século volvido, o Visconde Soto Maior continua a gozar de indelével notoriedade.

Exemplo desse facto é o artigo publicado no jornal diário, de dimensão nacional, "Dagens Nyheter" de 31.03.02, na coluna intitulada Stockholmsliv (Vida de Estocolmo), cujo texto foi enviado pelo leitor Akke Lund ao colunista Martin Stugart.  Nesse artigo é assim retratado o Embaixador Soto Maior:

(...) "Na então casa de esquina no cruzamento de Hamngatan/ Norrlandsgatan, demolida em finais da década de 60, e após 1970 substituída pela PK-huset, residiu, por mais ou menos 35 anos, na segunda metade do século XIX, uma das personalidades mais originais de Estocolmo.

Ele vinha de Portugal e o seu nome completo era Visconde D. António da Cunha de Soto Maior Gomes Ribeiro d'Asevedo e Mello.

Soto Maior nasceu no Brasil a 18 de Novembro de 1812, filho de diplomata português. Depois de um período na carreira militar tornou-se político e foi eleito para a Câmara Baixa de Portugal, onde se tornou um temido opositor do partido do Governo.

Aos 44 anos foi-lhe oferecido um cargo diplomático num posto distante de Lisboa - Estocolmo. Em 29 de Maio de 1856 Soto Maior apresentou as suas credenciais ao Rei Oscar I.

Soto Maior tornou-se uma personalidade conhecida na vida social de Estocolmo graças à sua aparência elegante. O mais certo era encontrá-lo durante o seu passeio diário em Kunsträdgården e seus arredores, facilmente reconhecido pelos seus cabelos grisalhos e pelas suas suíssas abundantes. Tinha sempre o cuidado de colocar um cravo natural na lapela esquerda do seu casaco.

O artista Fritz von Dardel caracterizou Soto Maior da seguinte forma: "Europeu do Sul, célebre pela sua excentricidade, pelos seus trajes elegantes, pelos diamantes, pelas insígnias de diversos tamanhos, pela sua cabeleira espessa, pelas suas dívidas e pelos seus galanteios".

Por causa dos seus galanteios entusiásticos "Söte Majoren" (Doce Major - alcunha deste cortês Don Juan na linguagem popular) envolveu-se num duelo escandaloso - terminantemente proibido por lei - na região de Lill-Jan. Um diplomata inglês, Mr Baker, insultou uma senhora na presença de Soto Maior. As luvas foram atiradas, e, no alvorecer do dia 5 de Dezembro de 1857, o duelo entre os dois teve lugar na floresta de Lill-Jan. Mr Baker ficou levemente ferido - possivelmente com um tiro na orelha.

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Quadro de Fritz Von Dardel representando o Duelo em que se envolveu Soto Maior a 5 de Dezembro de 1857

 

Consta que o prato Gösfilé à la Soto Maior (Lúcio-perca à la Soto Maior) foi composto pelo restaurante Stallmästargården (sob supervisão rigorosa do Enviado em apreço). Entretanto, foi no restaurante Hasselbacken em Djurgården que se tornou a especialidade da casa.

Na canção "A rapariga de Estocolmo", ao som da melodia "Isabella", Soto Maior é mencionado nos dois últimos versos.


                                         * NT - (Versos da melodia em sueco)
  
                                         Sei de um antigo diplomata,
                                         Soto Maior,
                                         representante de um velho Estado
                                         nenhum tambor-mor.
                                         Com todas as raparigas do teatro de variedades
                                         era versado e íntimo,
                                         sempre o autêntico corifeu
                                         do velho regime.
                                         Soto Maior,
                                         doyen de todos nós
                                         Soto Maior é um bom refrão,
                                         Vós, como no costume dos nossos miúdos
                                         É visto
                                         em pequenas ceias
                                         um marquês deste género
                                         e português
                                         dificilmente haverá em Paris 
   

Com o tempo, Soto Maior tornou-se num perfil tão conhecido e apreciado, que após a sua morte era possível observá-lo, como boneco de cera exposto no Svenska Panoptikon em Kungsträdgårdsgatan. O boneco estava vestido com as próprias roupas de Soto Maior.

À excepção de uma viagem que fizera ao México, para participar nas comemorações de posse do Imperador Maximiliano, permaneceu sempre fiel a Estocolmo. As suas próprias palavras sobre a vida sueca: "Gosto muito da Suécia, boa gente, muitos amigos, nunca me afastarei daqui, quero morrer em Estocolmo".

Soto Maior teve o seu desejo satisfeito. Faleceu de forma tranquila e suave na sua residência em Norrlansgatan, no dia 20 de Janeiro de 1984." (...)

O Embaixador Soto Maior é também referido no livro "Os dois primeiros centenários" do Clube "Sällskapet", do qual foi membro durante a sua passagem por Estocolmo, e que o descreve como "personagem cantada ao mais alto nível" e com "perfil inconfundível":

(...) "Uma personagem cantada ao mais alto nível, tanto no "Club Sällskapet" como na vida social de Estocolmo, era o Ministro residente português, António da Cunha de Soto Maior, que foi sócio do "club" em diversas ocasiões, uma das quais na década de 1880, altura em que era o membro mais antigo do corpo diplomático, após uma estada tão grande na Suécia que chegava a despertar curiosidade.

Segundo rumores, Soto Maior nunca chegou a visitar o seu País por causa de dissabores vividos num duelo antes da sua partida de Lisboa.

O seu perfil era inconfundível, o Ministro seguia sempre a última moda. Permitiu que fizessem uma caricatura sua num livro de sua propriedade sobre o "Club" e a vida social de Estocolmo - que actualmente pertence ao sócio e conhecedor de Portugal, Lars-Eric Thunholm - em que Soto Maior , de suíças, parece um "poodle" bem cuidado.

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Conta-se que o pequeno grande diplomata, que se encontra sepultado em "Norra begravningsplatsen", em Estocolmo, conseguiu aproximar-se da corte a tal ponto, que uma vez atreveu-se a sugerir a Sua Majestade que lhe fosse conferida a Ordem de Serafim. Não era, contudo, considerado uma personalidade extraordinária a este ponto. O Rei respondeu, evidentemente, que não. De qualquer maneira, estando já Soto Maior no leito de morte, consta que Oscar II se deslocava pelo quarto a murmurar num sentimento autêntico de pesar: "estamos a pensar na Serafim, estamos a pensar na Serafim". Entretanto, o moribundo despertou do torpor e disse-lhe tranquilizadoramente: "Não Majestade, em breve serei eu próprio um serafim".

    Como é referido no artigo de Akke Lundh, uma das maiores contribuições para a notoriedade de Soto Maior até aos nossos dias é sem dúvida a receita que adoptou o seu nome, inicialmente confecionada pelo restaurante Stallmästargården, que era muito frequentado pelo diplomata, e que ainda hoje é especialidade de um restaurante em Djurgarden: Lúcio-perca (Gös) à la Soto Maior. A receita é muitas vezes referida em compêndios suecos de culinária, na qualidade de especialidade estrangeira, e, como se pode verificar, é uma versão dos tradicionais filetes portugueses:


Ingredientes:

(Para 6 ou 7 porções)

1 lúcio-perca (gös) de aprox. 1,25 kg
óleo
1 cebola
¼ de limão cortado em rodelas,
sal
pimenta
5 cl de natas
farinha
azeite para fritura
salsa
molho

Preparação:

Escama-se, enxuga-se, e abre-se o peixe nas costas. Limpa-se e retira-se a espinha dorsal. Conserva-se, no entanto, a cabeça e o rabo. O peixe é marinado no óleo e nos temperos por algumas horas. Depois retire os temperos e humedeça o peixe nas natas passando-o, de seguida, na farinha e fritando-o no azeite. Deite-o em papel para absorver o excesso de gordura. Sirva-o sobre pão frito e decore-o com salsa frita. O peixe deve ser servido bem quente e acompanhado de um molho de tomate, molho italiano ou um molho relativamente grosso de cogumelos. 
   

Era tão grande a popularidade de Soto Maior na época que era constantemente solicitada a sua presença em recepções e jantares da alta sociedade. Para além disso, muitas vezes era abordado paraparticipar, inclusivamente, em acções de publicidade, o que veio a aceitar em algumas ocasiões, como é o caso da firma de produção de tabaco "Cigarr och Tobaksfabriken" de Malmö.

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Rótulo de uma marca de tabaco de uma empresa de Malmö no final do séc. XIX

 

Para além de uma vida social intensa, patente em todos os relatos sobre Soto Maior, é também notável a sua actividade diplomática. É de relevar, igualmente, as boas relações que o Embaixador Soto Maior parecia ter estabelecido com o Monarca sueco. A 11 de Junho de 1883, reportava para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, um encontro que tivera com o Rei Oscar:

(...) Encontrei-me hontem com Sua Magestade na Praça de Carlos 13, a dous passos da minha porta. S. Magestade disse-me "entrons chez vous". O Rei Oscar teve a bondade de me informar do seguinte: M. Mantiuou a écrit de Lisbonne que le Prince Royal Dom Carlos viendrait ici le mois prochain.

A visita do Príncipe herdeiro concretizar-se-ia em Outubro de 1883 e foi considerada pelo Embaixador titular Soto Maior como "sem precedentes", reportando ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que "em parte alguma Sua Alteza foi ou será recebido com maior pompa e aparato, com maiores cuidados e atenções":

(...) "Vi aqui o Grão Duque da Rússia, hoje Imperador, o Príncipe Real da Dinamarca, o Príncipe de Galles, o Príncipe Imperial da Alemanha (...) e Príncipe algum foi recebido com as honras feitas a Sua Alteza (...).

(Comunicação do Embaixador Soto Maior ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, 17 de Outubro de 1883)

 Foi também Soto Maior que preparou a visita do Rei Dom Carlos à Suécia, tendo recebido o Monarca em Malmö, e acompanhado na viagem de comboio até Estocolmo, onde seriam recebidos pelo Rei Oscar e grande Comitiva.

(...) Chegámos a esta capital às 10 horas. Na estação estava S. Magestade com os Príncipes, Condestável-mor, Ministros, Generais e Almirantes, etc (...). O Rei Oscar abraçou affetuosamente o nosso Príncipe aprezentou-lhe seus filhos, com principaes signatários da sua Corte. A guarda de honra inclinou a bandeira e tocou o hymno português. (...) A Rainha recebeu Sua Alteza com extrema afabilidade, com carinhos, pode-se dizer (...)

Preparou igualmente a primeira visita de um Rei sueco à capital portuguesa em 1888.

O próprio Soto Maior descreve as honras de que foi alvo por parte dos vários sectores da sociedade sueca por ocasião dos "25 anos da entrega da credencial ao falecido Soberano, Oscar I":

(...) Contei ontem 25 annos que entreguei a minha credencial ao fallecido Soberano, Oscar. (...) S. Magestade o Rei Oscar fez-me a honra d'expedir o seguinte telegrama;

    Londres 25 mai 11h29m

    Je vous félicite de tout mon coeur à l'occasion de votre jubilée de 25 ans et pour sympathie que vous vous êtes acquis, et que je partage sincérement.

Os jornais de Estocolmo publicaram longos artigos, mui lisonjeiros para mim.(...) Escrevo esta carta porque julguei dever informar a V.Exa das honras que recebi e da maneira como fui tratado, mas não movido por sentimento algum de vaidade, pois que sei que tudo isto é devido não À minha humilde pessoa, mas sim ao posto de que me acho revertido. (...).

(Comunicação de Soto Maior enviada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros a 1 de Julho de 1881.)

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No dia 26 de Janeiro de 1894, celebraram-se as cerimónias fúnebres do Visconde de Soto Maior na Igreja católica de Estocolmo. Confirmando a notoriedade e reputação adquiridas durante os anos que representou Portugal na Suécia, estiveram presentes, como relatava o Embaixador Castro Feijó à Secretaria de Estado, representantes de Suas Magestades e Altezas Reais, os Ministros dos Negócios Estrangeiros e da Fazenda, o Ministro de Estado da Noruega, o Governador da cidade, vários conselheiros de Estado, grande número de senhoras e cavalheiros da alta sociedade e todo o corpo diplomático. (...) O Senhor Visconde era o homem mais popular de toda a cidade e talvez de todo o paíz. Toda a gente o conhecia e o estimava sinceramente.

(Comunicação do representante de Portugal em Estocolmo, Castro Feijó, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, 26 de Janeiro de 1894.)

 

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